Entrevista Antônio Gomide – “Esperamos que o novo prefeito faça melhor do que nós fizemos.”

 

 

Em entrevista concedida ao Jornal A Voz de Anápolis, o prefeito reeleito em 2012 com a maior votação proporcional do Brasil, Antônio Gomide voltou às disputas eleitorais em 2016 para obter um novo recorde nacional: tornou-se o vereador mais bem votado do País em termos percentuais, superando recordistas em números de votos como Jorge Kajuru, em Goiânia, e Eduardo Suplicy, na cidade de São Paulo. Gomide ainda esteve na linha de frente da campanha de João Gomes. Preparando-se para o próximo mandato de 2017 a 2020, o vereador eleito faz um balanço sobre a sua trajetória após a conclusão dos oito anos de seu mandato na Prefeitura, projeta a sua atuação no Legislativo e faz uma análise sobre a mudança de comando da cidade com a eleição de Roberto Naves. “Entregamos uma cidade bem melhor do que aquela que pegamos em 2009”, explica.

 

 

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A Voz de Anápolis – Qual a análise que você faz do processo eleitoral deste ano na cidade e como chegam Gomide na Câmara e Naves na prefeitura?
Antônio Gomide – Tivemos o resultado de uma eleição muito disputada, decidida voto-a-voto. Tivemos a chance de ser prefeito por oito anos, em dois mandatos, e isto se deu porque fizemos a diferença na cidade. A população quis escolher, agora, um novo projeto dentro do contexto político e com a influência da agenda nacional. Entendo que se formos comparar as eleições de 2008 e 2012 com 2016 é possível perceber a diferença do humor do eleitorado e a disposição do cidadão anapolino em ir às urnas. E, agora, a sua disposição com o novo prefeito. Veja que em 2008, mais de 161 mil anapolinos foram às urnas e, destes, 122 mil votaram em nosso projeto – 75% da população abraçou nossas propostas para o município. Em 2012, dos 241 mil eleitores aptos a votar, 188 mil foram às urnas e, destes, 167 mil votos foram pela nossa continuidade: depois de quatro anos de trabalho tivemos 89% de aprovação na urna. Agora, em 2016, com mais de 260 mil eleitores, somente 173 mil foram às urnas, um número menor que 2012. E como resultado vemos uma eleição em que o prefeito foi eleito com pouco mais de 88 mil ou 34% dos votos dos eleitores anapolinos. Ou seja: dois terços dos eleitores não escolheram o modelo apresentado pelo grupo eleito.

 

AVA – Isto causa algum impacto no cotidiano de uma administração?
AG
– Sem dúvida. Até porque existe uma mudança de comportamento e de disposição do cidadão anapolino em acompanhar o cotidiano da sua administração, do seu representante. Temos um prefeito eleito com um terço dos votos e que, neste momento, terá de administrar para todos os cidadãos. Esperamos que ele melhore a cidade como fizemos e que possa fazer com que a cidade cresça. Mas existe uma diferença muito grande do que ocorreu em 2008, 2012 e de agora porque a nova administração precisa conquistar a população para que estabeleça um diálogo permanente com a cidade e angariar os quase 65% que não votou neste modelo. É uma responsabilidade ainda maior porque a gestão começa com expectativa deste Novo. É preciso responsabilidade, pé no chão e diálogo com todos. Esperamos agora pelo financiamento do Curso de Medicina, a implantação da Guarda Municipal, a Municipalização da Água, o Centro de Pediatria, a troca das lâmpadas para Led, o novo Restaurante Popular e os demais compromissos feitos na campanha que o levaram à vitória. Mas esperamos que Anápolis continue num rumo que está dando certo desde 2009.

 

AVA – Existe uma postura definida para sua atuação na Câmara Municipal? Haverá uma oposição ferrenha ao novo governo?
AG – Pelo contrário: quero que a gestão Roberto Naves possa acertar. Quero colaborar. Quero dar a minha contribuição porque conheço bem a gestão por dentro e conheço os projetos que estão em andamento na cidade. Quero somar e fazer com que Anápolis seja cada vez mais uma referência positiva. Não queremos ver projetos parados. Não queremos retrocesso, obras paralisadas, não queremos um quadro como o do Governo de Goiás em 2014 que, depois de vencer a eleição, parou com tudo que estava fazendo na cidade e aí segue parado até hoje. Queremos ver melhorias no abastecimento de água, nas obras em andamento de responsabilidade do município que estão em desenvolvimento. Queremos a manutenção e ampliação das conquistas sociais, da rede de proteção social e de todo o conjunto de ações que geraram qualidade de vida à nossa população.

 

 

“Importante podermos andar na cidade de cabeça erguida depois de um trabalho com tanta exposição como a gestão pública. Hoje, podemos andar em todos os bairros e sentir a gratidão por tudo que conseguimos fazer juntos”

 

 

AVA – Há quem afirme que administrar a cidade em 2009, quando você assumiu, foi fácil porque a cidade estava organizada e que, agora, há uma crise financeira. Roberto terá dificuldades?
AG – Olha, quando se quer arrumar uma desculpa, tudo se torna explicado pela falta de recursos. O Brasil e em especial as prefeituras sempre passaram por crises. Sempre tivemos problemas financeiros porque o orçamento tem suas limitações desde sempre. O que vale é o planejamento, se tem pouco dinheiro, mas quer fazer, dá para planejar e realizar com o que se tem. Roberto Naves sabe qual é o orçamento disponível e agora precisa eleger quais são as suas prioridades na gestão. E assim é possível realizar e pôr em prática estas prioridades. Uma cidade como Anápolis, com um orçamento anual que passa a casa de R$ 1 bilhão, é possível fazer muito pela melhoria do cidadão. Estamos entregando o nosso governo, hoje, com uma realidade muito melhor do que recebemos. A prestação de contas na Câmara foi realizada pelo prefeito com a presença aos vereadores mostrando o que nós temos, o que fizemos, o que temos a fazer. A cada quatro meses temos feito isso: mostrado como anda a gestão. Dinheiro não vai faltar porque o cidadão faz a sua parte sempre.

 

AVA – A cidade hoje é melhor em quais aspectos no comparativo com 2008?
AG – Veja: nós diminuímos em mais de 60% a dívida fundada em seis anos em relação ao que peguei em janeiro de 2009. Tudo está sendo pago dentro da data prevista. Tivemos os oito anos de salários dos servidores pagos dentro do mês trabalhado, um feito que nunca aconteceu em 101 anos de história, época em que assumimos. A cidade, numa época triste, se acostumou a ver 4, 5 ou 6 meses de salários atrasados: nós pusemos fim nisso e provamos que é possível respeitar o trabalhador municipal. Estamos entregando a cidade muito melhor do que quando pegamos em 2008. Tínhamos uma cidade arrasada na sua Infraestrutura, calamidades como a Rua Pérola, que diziam não ter solução, tínhamos uma Avenida Goiás interditada com a desculpa de falta de recursos e projetos. Anápolis, quando chegamos na prefeitura, era uma cidade que não podia assumir convênios ou realizar parcerias com o Governo Federal porque tinha certidões suspensas por dívidas, não tinha a documentação adequada. Hoje a cidade será entregue em dia, funcionando, até mesmo com detalhes como a licitação da Educação para a compra dos uniformes dos alunos da rede para 2017 já está organizada, bastando ao prefeito dar prosseguimento ao processo. Nós contribuímos para esta organização, para ter essa alegria de volta à vida da nossa gente. Hoje o povo tem orgulho de viver em Anápolis. Agora, para isto acontecer, é preciso planejamento, uma boa equipe de trabalho e definir prioridades. Queremos que o novo grupo que chega à Prefeitura possa fazer melhor do que fizemos.

 

 

“Nós contribuímos para a organização da cidade, para ter essa alegria de volta à vida da nossa gente. Hoje o povo tem orgulho de viver em Anápolis. Agora, para isto acontecer, é preciso planejamento e uma boa equipe de trabalho”

 

 

AVA – Esta gestão que se encerra faz parte do seu segundo mandato. Você tem conhecimento de como andam as contas da Prefeitura?
AG – Temos acompanhado. As contas estão equilibradas e dentro do previsto, dentro do que foi planejado. Tudo está dentro da Lei de Responsabilidade Fiscal. A aplicação da Saúde e da Educação, por exemplo, seguem dentro da lei e até acima do percentual previsto no investimento de cada pasta. E principalmente, tudo isso já foi apresentado formalmente para a Câmara Municipal, para os vereadores. A nota 10 em Transparência, que foi uma conquista desta gestão, precisa ser mantida porque é este tipo de postura que evita informações desencontradas. Todos os vereadores tiveram acesso à realidade da gestão que também está disponível para toda a população. E, agora, como vereador, quero ser o canal de fiscalização, mas também ser o canal que irá facilitar o acesso a estas informações de forma didática para todos, tanto na área política quanto também na administrativa.

 

 

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AVA – O prefeito João Gomes atribui a derrota ao efeito do PT na cidade. Você concorda com esta análise?
AG – Se partirmos somente desta premissa, também foi um efeito do PT chegarmos à Prefeitura em 2009. Então, temos cenários específicos e precisamos observá-los. Até porque perder uma eleição por 4,2 mil votos não pode ser creditado a um efeito específico, ou mesmo ao efeito do desgaste do PT nacional, como ocorreram em outras cidades influenciadas pelo contexto nacional. É fato que o PT precisa corrigir o seu rumo na prática, mas na cidade o nosso caminho do trabalho foi real, saiu do discurso e pudemos transformar Anápolis. E foi o PT quem nos deu essa oportunidade de promover tantas mudanças. Esta mudança de postura do PT parte de seus integrantes comprometidos com a população e vem através do trabalho. Estamos começando uma nova jornada, mas de um tipo de trabalho que conhecemos bem. E é neste sentido que queremos seguir dando a nossa contribuição, com ações e com práticas.

 

AVA – Qual a sua avaliação como integrante do PT para que o partido saia deste crise de imagem e renove sua atuação junto ao eleitor?
AG – O PT irá fazer a sua autocrítica e deve corrigir o seu rumo na prática. Para isto deverá retomar os diálogos com as bases sociais que são a nossa origem. Temos de voltar para onde viemos e de lá reconstruir nossa relação que é profunda com os movimentos sociais, com as bases da população e com as pessoas. Temos um acúmulo e um grande legado a defender pelas diversas conquistas empreendidas. O nosso olhar é para o futuro. Nosso projeto mostrou ser de apelo e aceitação dos trabalhadores quando nós fomos oposição e quando governamos. Sabemos que a vida do PT será dura no próximo período. Mas nosso caminho não tem atalhos e a saída é seguir em frente no contato com os movimentos sociais e as pessoas.

 

AVA – Em Anápolis, este trabalho de recuperação da imagem do PT, tendo sido ou não decisiva para a eleição na cidade, é mais fácil ou será difícil como no resto do País?
AG – A transformação da cidade de Anápolis aconteceu com o PT, com a nossa gestão. E é por ações que podemos mudar a imagem das pessoas sobre o PT. Principalmente em Anápolis onde as realizações do PT mudaram os rumos da cidade e fizeram a diferença na vida das pessoas. É isto que pretendemos apresentar com o nosso trabalho: fazer a defesa das nossas conquistas.

 

 

“Esperamos agora pelo financiamento do Curso de Medicina, ​a implantação da Guarda Municipal, a Municipalização da Água, o Centro de Pediatria, e os demais compromissos feitos na campanha que o levaram à vitória”.

 

 

AVA – Muitos levantam a hipótese de você sair do PT. Existe essa possibilidade?
AG – O partido não é o fim, mas, sim, o meio que o político tem de fazer a diferença com o seu trabalho. E nós fizemos a diferença em Anápolis. Quero contribuir para a correção de rumos do partido. Reorganizar e seguir trabalhando. Até porque o momento político é ruim não só para o PT, mas para todos os agentes políticos e partidos do País. Os escândalos de corrupção mostram que não existe um partido correto e outro errado, mas há uma triste democratização do crime contra a população, com desvios de recursos e tudo o que está posto hoje para a sociedade fazer a sua avaliação.

 

AVA – Qual vai ser a tônica da sua atuação na Câmara?
AG – Queremos ir além das sessões da Câmara. Queremos mostrar para as associações de moradores, os sindicatos, os segmentos organizados e para toda a população o resultado da nossa atuação cotidiana e, para isto, devemos ter um desempenho efetivo de fiscalização e apresentação de propostas e alternativas a fim de dar a nossa contribuição, através do conhecimento que temos por tudo o que conseguimos fazer na cidade em oito anos. Queremos contribuir com a manutenção da independência do Legislativo como poder instituído e valorizar cada um dos pares que irão atuar nos próximos quatro anos.

 

AVA – Existem prioridades para a sua atuação?
AG – Tenho bandeiras bem claras da nossa atuação política. Na Educação, quero educação pública, gratuita e de boa qualidade. Na Saúde, fortalecer o Sistema Único de Saúde. Dizemos não às OSs, às terceirizações, à privatização. E todo este debate passa necessariamente pelo Legislativo. No desenvolvimento econômico, queremos a garantia de geração de Emprego e Renda, sempre com o olhar no Desenvolvimento Social. E é para isto que estamos trabalhando ao longo da nossa trajetória e é o que vamos seguir defendendo.

 

AVA – Com a sua trajetória e pela votação recorde, você se sente apto à disputa da Presidência da Câmara?
AG – É uma discussão que passa por todos os vereadores. Não tenho uma vontade específica de ser presidente.  Se pudermos representar a cidade desta forma, através de um consenso, será uma grande honra. O poder legislativo é fundamental para o processo democrático e o crescimento da cidade. Portanto, sendo ou não presidente, podemos fazer o nosso trabalho e inserir a população dentro do debate. Mas reconheço que todos os vereadores eleitos têm condições de pleitear e se tornar presidente do legislativo. Uma chapa de consenso para a Mesa da Câmara é o ideal para a cidade, para os vereadores que chegam e para o novo prefeito. Se tivermos a oportunidade de contribuir, tudo bem, estamos prontos, mas lá dentro somos 23 vereadores com os mesmo direitos e compromissos.

 

AVA – O fim de uma eleição é o marco para o início de outra. Assim, já existe algum tipo de movimentação com vistas à 2018?

AG – Estamos entrando no mandato de vereador e vamos começar o nosso trabalho com calma. E aí, sim, à medida que forem acontecendo os desdobramentos políticos, vamos programando os nossos passos dentro do cenário. A ação sem sobressaltos nos rendeu contribuições importantes para a nossa cidade. Fui vereador por três mandatos, prefeito por dois e é preciso, portanto, agir com cautela e com responsabilidade. A população nos reconhece por isto. Foi uma honra para mim ser eleito com tamanha votação em 2008 e depois ter a maior votação do Brasil para prefeito como aconteceu em 2012. Agora, novamente fomos recordistas nacionais em percentual de votos. O nosso legado é um motivo de alegria pelas conquistas por podermos entregar a cidade organizada e com a chance de projetar o futuro. Além disto, estou preparado para ocupar os espaços que me permitam representar bem a nossa cidade e defender os interesses da nossa população.

 

 

“Roberto Naves sabe o orçamento que tem e deverá eleger as suas prioridades de gestão. Dinheiro não vai faltar porque o cidadão faz a sua parte sempre”.

 

 

AVA – Uma das propostas do novo prefeito é a Municipalização da Água. Qual será a sua postura na Câmara quanto a esta medida?
AG – Primeiro vamos esperar as ações do prefeito. É ele quem vai nos provocar neste sentido de fazer o debate sobre estas ações. Temos um plano de saneamento em execução. A concessão de água e esgoto que foi dado à Saneago e vence em janeiro de 2023. Eu entendo que nós precisamos nos preparar para que em 2023 tenhamos a chance de sair da Saneago e ter vida própria, gerindo estes recursos. Romper um contrato em vigência é uma questão jurídica, uma vez que torna-se uma briga judicial demorada, longa, na qual ninguém ganha: nem o cidadão, nem a cidade, nem o prefeito. Precisamos é resolver o problema da água. Entrar numa disputa judicial não irá garantir água na torneira das pessoas.

 

AVA – Qual a avaliação que você sobre este conceito do “Novo” e esta busca do eleitor em alguns momentos do cenário político em ter “novidades” sem se se interessar muito no que isto consiste?
AG – Esta conceituação de “Novo” não é algo inovador e muito menos localizado numa determinada região ou País. O produto do “Novo” está longe de ser novidade. Ao contrário: é algo produzido com muito marketing e com um tipo de discurso que vem de fora e somente se repete. Vejamos como este movimento vem em efeito cascata: a eleição do Donald Trump tem traços semelhantes com realidades brasileiras. Trump é empresário, rico, e afirma que não é político. Ele diz detestar a Política. Ou seja: ele quer ser um gestor, nos mesmos moldes do discurso do João Dória [prefeito eleito de São Paulo], e o exato mesmo discurso repetido durante toda a campanha de Roberto do Órion aqui em Anápolis.

 

AVA – Qual o sentimento que fica após o fechamento deste ciclo de oito anos no Executivo e o processo eleitoral que o retornou à Câmara?
AG – Fica o nosso agradecimento a todos que acreditaram em nosso projeto. Que votaram em mim, que votaram no prefeito João Gomes porque acreditaram em nosso projeto. Importante podermos andar na cidade de cabeça erguida depois de um trabalho intenso e com tanta exposição como a gestão de uma cidade. Hoje, podemos andar em todos os bairros e sentir a gratidão por tudo que conseguimos fazer juntos. São essas pessoas que querem que ainda façamos mais. E é por isso que só tenho a agradecer. O importante é o respeito ao voto popular e à supremacia do processo democrático. É preciso agora fazermos com que tudo aconteça dentro da naturalidade e normalidade. Eleição é um processo em que os projetos podem ser aceitos e outros, não. Mas o importante é que depois disso sigamos em frente e possamos dar a nossa contribuição para que a cidade siga se desenvolvendo independentemente quem seja o prefeito, o presidente da câmara, quais sejam os vereadores. Todos nós que somos agentes políticos precisamos ter um comprometimento como nós tivemos nestes oito anos que passamos na gestão. Esperamos que o novo prefeito tenha o comprometimento e o sucesso que tivemos nesta trajetória. Da minha parte, só tenho a agradecer a todos.

 

Fonte: Jornal A Voz de Anápolis, edição 048

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