Entrevista – Jornal Estado de Goiás (Ed. 632)

O vereador Antônio Gomide (PT), eleito prefeito de Anápolis duas vezes, faz uma análise do cenário político anapolino. Segundo ele, os atuais detentores de mandato, seja no Executivo ou no Legislativo, devem trabalhar sem olhar o passado. O petista acredita que a cidade evoluiu nos últimos oito anos e que o povo não quer viver momentos de retrocesso. Ele defende que a cidade precisa avançar e que vai trabalhar para propor uma política de debates com objetivo de defender os interesses do coletivo. Gomide afirma que não será oposição por oposição na Câmara Municipal, e que pretende fazer um mandato propositivo. O vereador acrescenta ainda que foi eleito para colaborar com o desenvolvimento do município, pois, segundo ele, o prefeito passa, mas a cidade fica. Confira a entrevista concedida ao JE na terça-feira (14).

 

 

Como foi essa volta à Câmara Municipal?
O trabalho que temos na Câmara é de muita responsabilidade. Fui eleito prefeito por duas vezes e conheço bem a cidade. Tive uma votação bem expressiva, isso também aumenta a responsabilidade no sentido de conhecer sempre os projetos que estão em andamento no município e reconhecer o quanto a cidade ainda pode melhorar nesse momento que vivemos. Muitos querem plantar que o momento é de crise, mas eu enxergo como um momento de oportunidades. Eu vivi isso quando cheguei à Prefeitura de Anápolis em 2009, quando havia um descrédito muito grande pela política. Poucas pessoas acreditavam que poderia haver um prefeito que transformasse uma cidade, que pudesse colocar as contas em dia. Então esse cenário de hoje, vivemos em 2009 e superamos olhando para frente, buscando alternativas para melhorar. Eu percebo que esse momento agora, em 2017, é muito semelhante. A população também está cobrando maior agilidade do político, mais ações e resultados. A cobrança é por menos discurso e mais resultados. Estarei na Câmara Municipal como um vereador que vai somar pela cidade exatamente por conhecer o nosso município e seu potencial. Vou fiscalizar bem o dinheiro público, ver se o recurso financeiro está sendo aplicado no lugar certo. E eu não tenho dúvida: o atual prefeito pode dar um salto ainda maior na qualidade de vida da população.

 

O PT agora é oposição em Anápolis. Como o senhor pretende trabalhar isso?
Nós tínhamos um projeto para o Executivo e perdemos a eleição. Tive a oportunidade de ganhar mandato no Legislativo. Hoje o PT é a maior bancada da Câmara Municipal. Esse projeto é diferente do que a gente defendia nos últimos oito anos, mas a decisão da cidade foi mudá-lo. Respeitamos o voto e agora vamos trabalhar no sentido de fazer uma oposição propositiva, uma oposição de debate, de argumentos, pois entendo que é dessa forma que podemos ajudar a cidade. Vamos discutir ideias e projetos. É muito melhor que apenas estar ao lado do Executivo para conseguir cargos. Hoje o nosso papel é ajudar Anápolis e para isso é preciso qualificar o debate. Qualificar o debate é fazer com que o Plano Diretor tenha viabilidade e dê condições de se ter uma cidade melhor, que possamos fazer com que os Cmeis e os nossos postos de saúde que estão em construção possam, o mais rápido, ser entregues. Tudo isso dará maior dinamismo para a cidade, tudo isso melhora a qualidade de vida. Eu vejo que a qualificação do debate é fundamental na Câmara Municipal, que é a casa do debate, da argumentação. Pretendo apresentar bons projetos, acompanhar aqueles que estão em andamento e fiscalizar bem o dinheiro público.

 

O senhor também faz defender o legado desses oitos anos?
Acho que temos um grande desafio. Temos a consciência de que os últimos anos de Anápolis foram de grandes transformações. Entendo que nós conseguimos em dois mandatos fazer o que muitos prefeitos não fizeram. Eu percebo que avançamos não só na qualidade de vida, mas na área da saúde, avançamos nas construções de creches. Em menos de oito anos entregamos 16 creches e deixamos outras cinco em construção. Temos uma UPA que foi construída depois de 45 anos de espera por um novo hospital público de grande porte para o município. Construímos o Cais Mulher, fizemos parques ambientais, como o Ipiranga, o da Cidade e o da Liberdade. Levamos asfalto para mais de 106 bairros. Conseguimos entregar milhares de moradias com o programa ‘Minha Casa, Minha Vida’. Foram anos de muita evolução. Transformamos a educação municipal com um plano de carreira que deu estabilidade para o professor. Percebo que o nosso desafio foi cumprido e reconhecido na cidade, tanto que tive essa grande votação agora nesse retorno à Câmara Municipal. Acredito que esse reconhecimento foi em função do meu trabalho como gestor, como líder de uma equipe eficaz. Agora o desafio é maior porque além de manter uma cidade nas condições que deixamos, é preciso avançar, garantir a manutenção de asfalto, dos parques, de melhorar as creches, e isso terá um custo, a cidade exigirá mais. A população não elegeu o prefeito Roberto para ficar olhando o que já foi feito, a cidade o elegeu para fazer mais. Esse é o desafio que o novo prefeito tem.

 

O que esse Legislativo tem de diferente daquela época que o senhor foi vereador?
O Legislativo é a cara da cidade. A cidade está dentro da Câmara Municipal. As pessoas que elegeram os vereadores são os representantes dos bairros, de entidades, daquilo que a cidade pensa. Eu percebo que o Poder Legislativo sempre vai estar atualizado, porque é a escolha mais próxima do cidadão. Agora, a atuação do Legislativo demanda debates, discussões. Eu quero entender que uma vez que houve 2/3 de renovação na Câmara, significa que a sociedade tem novas demandas e exigências. A população espera um debate mais qualificado e é esse o desafio que essa nova Câmara tem hoje. O debate deve ser revertido em ações concretas para a cidade.
É um desafio reverter essa visão crítica que a sociedade tem do Legislativo e da função do vereador?
Poucas pessoas sabem o que acontece nas sessões do plenário, esse trabalho é pouco acompanhado. Eu percebo que o desafio do vereador é fazer com que as necessidades da cidade sejam conhecidas, discutidas e resolvidas. A sociedade quer resultados. O desafio que a Câmara tem é de ser sempre presente e atenta as demandas, ouvir o que a população tem a dizer, ir aos bairros, ser presente nas reuniões de associações de moradores, participar da luta das entidades classistas, de sindicatos e demais movimentos para levar a pauta da cidade ao Legislativo. E digo mais, fazer com que esse debate tenha resultados. O desafio que percebi que essa renovação trouxe foi a mudança de postura, de necessidade de debates e de apresentação de resultados.

 

O senhor teve três mandatos de vereador, dois de prefeito e agora retorna a Câmara. Percebeu a evolução no trabalho do vereador e da cidade?
Eu vejo que a cidade evoluiu. Quando assumi mandato de prefeito em 2009 eu senti um descrédito muito grande. As pessoas olhavam e diziam que a Prefeitura de Anápolis era um cemitério de prefeitos. Quem assume o Executivo não ganha nem para síndico de prédio, diziam. Nós entramos na prefeitura e o desafio foi fazer uma cidade diferente. Conseguimos. Depois de quatro anos fui reeleito com 89% dos votos no 1º turno. A maior votação proporcional para prefeito no Brasil. Foi graças ao trabalho, junto à nossa equipe, nos primeiros quatro anos de mandato. Tivemos liderança política e um direcionamento que nos levou a esse resultado. Então eu entendo que a cidade compreende o processo e cobra mais, a sociedade sempre vai cobrar mais. Depois dessas manifestações que tivemos a nível nacional, o desgaste político foi muito grande, por isso eu entendo que novos desafios aparecerão. Mas a cidade, o eleitor, em nenhum momento pensa em dar um passo atrás. O eleitor acredita que o seu voto serve para escolher o que é melhor para a cidade. Esse é o desafio que vivemos nesse momento. Ver o Executivo dar um passo adiante de tudo aquilo que foi feito nos últimos oito anos.

 

Eu queria que o senhor fizesse uma avaliação nesse início de administração da cidade, considerando a realidade que o senhor viveu quando foi eleito prefeito.
É uma honra muito grande ser eleito prefeito de uma cidade, mais ainda, ser eleito prefeito de uma cidade como Anápolis. O desafio é grande. A responsabilidade em formar uma equipe de trabalho preparada, qualificada, também é grande. E isso nós fizemos. Nós tínhamos uma cidade com certidões negativas na área da Saúde. Na Educação não tinham cumprido índice previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal. Os servidores não tinham ainda seu plano de carreira, tínhamos a falta de concursos públicos, fora o descrédito dos aposentados que, em anos anteriores, acumularam cinco, seis folhas de salários atrasados. A cidade precisava aumentar a sua autoestima. Os fornecedores não davam credibilidade ao poder público pelas dívidas. Havia os precatórios. Eu me lembro que quando chegamos à prefeitura, em janeiro, existia uma execução de uma sentença transitada em julgado. Eram mais de R$ 75 milhões referentes à Rede Ferroviária Federal, que nós tivemos que ir a União para poder fazer com que isso não atrapalhasse as contas da prefeitura. Mas a gente precisa desse diagnóstico antes de ser candidato a qualquer coisa. Porque depois, quando eleito, é preciso buscar soluções. O cenário de 2008 e 2009 era esse. E nós dissemos: não tem jeito, nós não podemos errar. É hora de olhar para frente e buscar as soluções para os problemas que vierem. A cidade merece. Era preciso melhorar a administração para que a roda continuasse a andar. A gente não tinha o Diário Oficial e implantamos. Vejo que é o mesmo cenário de agora. Claro que temos dificuldades, o cenário nacional econômico não é favorável, e isso reflete nos municípios, mas, foi eleito prefeito, tem que buscar soluções. Tem que olhar para frente, formar uma equipe competente. Esquecer o discurso. Quem debate, discute na tribuna é vereador, é deputado. O Executivo precisa agir e mostrar resultados. Essa é a lição que trago desde 2009. Tenho certeza que agora, em 2017, o eleitor não quer ver a cidade dar um passo atrás, independente de dificuldades.

 

Como o senhor avalia o momento político da cidade?
Acho que está bom. A eleição foi muito disputada. O cenário é propício para o prefeito desenvolver um bom trabalho.

 

Percebe que a cidade espera que o senhor seja a oposição? O senhor está sozinho nessa condição?
Pelo contrário. Estou trabalhando pela cidade. Eu tive oportunidade de ser vereador antes, de ser prefeito eleito por dois mandatos e agora voltar a ser vereador. Conheço bem a cidade, o parlamento e o município. Sei o que a cidade pode oferecer. Tenho oportunidade de debater os temas da cidade. Eu não serei oposição ao prefeito municipal, claro que não. Amanhã o prefeito muda. Eu preciso trabalhar para a evolução da cidade, e se vai agradar ou não o prefeito, essa é outra situação que será avaliada pela população. Não podemos ver uma cidade que hoje se desponta no cenário nacional em vários aspectos, que tem o segundo maior PIB de Goiás, tem o maior distrito agroindustrial, obras sendo construídas pelo governo estadual que precisam ser entregues rapidamente, e apenas ficar olhando para trás e reclamando. Perdemos uma eleição no Executivo, mas continuamos trabalhando pela cidade, pelo seu bem. Não tenho dúvida que o prefeito tem os desafios e precisa do debate para ter êxito. O debate não existe apenas entre aqueles que passam a mão na cabeça do prefeito, pelo contrário, o debate deve acontecer entre todos os vereadores e principalmente com a sociedade. O contraditório é essencial, o prefeito não governa apenas para um grupo, ele governa para a cidade, para todos, inclusive para aqueles que não votaram nele. Como vereador, considero que tenho condições para colaborar com a administração nesses quatro anos.

 

O senhor vê e em algum momento a intenção da situação de neutralizar o seu discurso na Câmara?
O Executivo é muito forte. Ele tem cargos, ele contrata, ele faz a política do dia a dia junto às secretárias. Ele prioriza o que entende ser melhor nos vários setores da administração. É uma força. Mas eu quero, pela votação que tive, ter a minha posição. A população reconheceu que eu poderia fazer um trabalho político com bons debates sem me preocupar com a força do Executivo. Eu não quero apresentar nenhuma lista para o prefeito, ficar bem com ele e mal com a cidade. Pelo contrário, quero deixar o prefeito livre para que a gente possa fazer um diálogo, uma conversa na Câmara, com transparência, com liberdade e competência para melhorar a cidade. É dessa forma que vejo. Mesmo com essa compreensão de influência do Executivo em cima dos cargos da prefeitura, eu percebo que a independência pode contribuir muito mais com a cidade do que simplesmente ter meia dúzia de pessoas colocadas na administração e o prefeito foi conivente com esse meu pedido. Não faço política dessa forma. Trabalho pela cidade como um todo.

 

O senhor criou o Diário Oficial do município. Agora participa do Conselho de Ética na Câmara. Qual importância da criação deste grupo no Legislativo?
Fundamental. Tudo que puder oferecer maior transparência, maior informação à cidade é fundamental. O Legislativo é um poder constituído e deve ser transparente. O cidadão tem que ter as informações desse órgão, seja pela internet, pelo rádio, por um Diário Oficial ou um portal de informações. Essa é a formatação que o povo quer ver para acompanhar as contas e ações da Câmara. É fundamental que o Executivo e o Legislativo deem a transparência aos seus atos por essas publicações. O Conselho de Ética é mais uma demonstração que queremos acertar. Tudo isso traz o cidadão para mais próximo dos poderes constituídos. O que puder fazer para melhorar a visão do povo dos políticos, de fazer uma política, deve ser trabalhado.

VOLTAR