O ódio que ameaça a democracia (O Popular – 17/03/2016)

antonio-gomideEm tempos desafiadores como o que vivenciamos no cenário político nacional e, ainda, no conflito ideológico que parece ter sido instalado na população brasileira, torna-se cada vez mais difícil encontrar referências que nos permita criar limites e parâmetros para nortear opiniões e posicionamentos.

 

No entanto, um dos pilares da construção de toda sociedade e, portanto, do que nos permeia a criar um ambiente de debate político saudável e minimamente proveitoso ainda é o respeito. É o respeito às trajetórias, às biografias, ao curso do processo jurídico garantido constitucionalmente que nos dá a oportunidade de obtenção do respeito e a possibilidade de convívio entre ideologias antagônicas.

 

No último fim de semana, o Brasil parou para assistir a uma marcha de cidadãos em diversas cidades brasileiras pedindo a interrupção do mandato da presidente Dilma. Trata-se de uma manifestação legítima sob o aspecto social, mas que deve ser encarada com atenção e proporcionalidade. Isto porque o clima instaurado no país de perseguição, com o incentivo para a formação de um tribunal de exceção não pode avançar em uma democracia como a nossa.

 

Além disto, é fundamental repreender a antecipação de julgamentos. O Brasil lutou e sangrou na reconquista de seus direitos legais e, entre eles, o direito do cumprimento do rito legal do Judiciário. No entanto, no afã da busca por mudanças no cenário político e, principalmente, econômico, tem-se tentado ambientar no país uma verdadeira caça às bruxas, semelhantes ao que se viu nos Estados Unidos tomados pelo macartismo (1940-1950), depois amplamente reconhecido como um equívoco.

 

O respeito também deve permear a biografia do presidente Lula, cujas ações à frente do governo brasileiro conduziu a Nação a um patamar de desenvolvimento econômico e social inéditos. Bem como consolidou uma nova posição do país no cenário internacional. Deixou a Presidência da República com 85% de aprovação popular.

 

Hoje, Lula torna-se alvo de uma manifestação política que utiliza da vontade legítima dos brasileiros em obter mudanças e de combater a corrupção em todos os níveis de governo e em todas instâncias partidárias para comprometer o patrimônio político do ex-presidente. É fato que Lula, fortalecido pela ressonância e apoio das camadas populares, é um alvo de adversários que se veem sob ameaça de mais uma derrota nas urnas em 2018.

 

A tentativa de criminalizar o ex-presidente e, principalmente, condená-lo por antecipação – uma vez que o rito processual sequer teve início e ninguém sabe se terá – é um artifício desesperado de retomar o poder por formas nada democráticas. É fundamental, ainda, obter-se mais nitidez ao movimento quanto às suas demandas e objetivos.

 

Pessoalmente, como agente público coloco minha trajetória que inclui três mandatos consecutivos na Câmara e dois mandatos de prefeito em Anápolis a fim de me solidarizar com os milhões de brasileiros que assistem à manipulação de uma causa popular legítima – manifesta democraticamente nas ruas – em um objeto de manobra política como se apenas um ou dois nomes fossem responsáveis pelos problemas institucionais do Brasil.

 

Por fim, pregamos novamente o conceito primitivo do respeito pelas leis brasileiras, pelo rito processual legal e o respeito às instituições, bem como seus representantes que promovem a garantia da aplicação da Constituição Brasileira. Rechaçamos com veemência a tentativa de penalização e condenação por antecipação de todo cidadão. O linchamento público, direcionado e politizado sob o comando de um grupo de oposição, longe de mirar na liberdade, visa a escravizar e doutrinar o pensamento do povo brasileiro.

 

Fonte: Artigo publicado no O Popular em 17/03/2016.

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